Impulsionados pelos resultados no Dakar e no Baja Italia, Reinaldo Varela e Alberto Fadigatti partiam para o rali da Tunísia, de volta ao deserto. A dupla estava em terceiro lugar na categoria T3.2 do Mundial de Rally Cross Country, com um total de 30 pontos. À frente deles estavam Gerard Marcy e Jean Paul Cottret, que haviam vencido na Itália e acumulavam 48 pontos, e os belgas Joost Van Cawenberge e Marc Devos, que venceram o Dakar e acumulavam 36 pontos. A prova tinha seu início oficial em 30 de janeiro, na cidade francesa de Nice.
Antes da largada, porém, um pequeno contratempo alfandegário afligiria Walther Neto, que fazia as imagens oficiais da equipe e também foi uma espécie de faz-tudo e relações públicas durante o Mundial. “O carro precisava de peças de reparo. Recebi uma ligação pedindo para levar peças para o carro. Eram quatro filtros, um câmbio e um para-brisa. Despachei como bagagem”, relata. Porém, explicar aos agentes do aeroporto de Nice foi difícil e surgiram perguntas sobre os documentos de importação daqueles componentes. “Por sorte eu estava com uma camisa da equipe e eles tinham noção de que estava havendo um rali. Expliquei que as peças não iam ficar ali e iam para a Tunísia”, prossegue, lembrando que aquela largada era mais uma exibição do que competição propriamente dita.

O fim do imbróglio acabou com outro semblante. “Eles mexeram no material e viram que não era nada de contrabando ou drogas, mas peças extremamente inusitadas: um câmbio que não serve para nenhum carro, só para o Troller. O filtro só serve para ele, e o vidro também”, recorda. “No final o policial me liberou. Ele chamou o supervisor e abriam as caixas rindo. Eles me disseram ‘vai embora, vai embora’”, completa, lembrando do tamanho de todas aquelas peças.

Após a viagem de navio, chegava a hora de competir de fato. E foi na Tunísia a primeira vitória da equipe, obtida ao percorrerem em 3 de abril os 288 quilômetros que separam El Kantara de Nekrif, o que alçou o Troller ao 11º lugar em uma classificação geral que tinha 90 inscritos. Porém, a boa posição não se repetiu no dia seguinte, com largada e chegada em El Borma, devido ao atolamento nas dunas, agravado por uma escolha equivocada de pneus. Naquele dia novamente os freios dariam problemas, desta vez no eixo dianteiro. Varela e Fadigatti chegaram em terceiro na T3.2 e 22º lugar no geral, fazendo-os cair para o segundo lugar no acumulado da categoria. Os principais rivais naquela prova eram os irmãos franceses Phillipe e Laurence Pinchedez, que lideravam com seu Nissan Patrol.

Em 5 de abril, na etapa de 226 quilômetros entre El Borma e Ksar Ghilane, Varela e Fadigatti melhoraram sua posição no geral, passando para o 15º lugar graças à vitória obtida na classe. Desta vez houve problema no GPS, que dificultou a navegação em um trecho de dunas, que normalmente é marcado pelos povos do deserto com pneus de trator e marcos de pedra. Porém a perda de dez minutos não afetaria muito o resultado de 2 horas, 41 minutos e 12 segundos. Ainda assim, seguiam na vice-liderança da T3.2.

As posições obtidas seriam mantidas a muito custo nos 269 quilômetros entre Ksar Ghilane e Tamerza, pois a partir do 25º quilômetro haveria o problema do tanque de combustível furado, necessitando de uma hora para ser solucionado e a solidariedade de um caminhoneiro que cedeu um pouco de diesel. Naquela etapa, as pedras seriam o problema principal. “É um rali muito difícil o da Tunísia. É um dos piores do mundo”, conta Fadigatti.
Os ventos melhorariam na penúltima especial, entre Tamerza e Tabarka. Com o abandono dos irmãos Pinchedez por problemas mecânicos, a dupla brasileira assumiu a liderança em sua classe. Os 234 quilômetros entre Tabarka e Túnis também seriam de liderança e chegada no décimo lugar da geral. Com isso, o Troller terminaria a prova em 13º no geral e assumia a ponta na T3.2.

Do rali, lembranças como a de uma tempestade de areia em que o roadbook era a tábua de salvação. “Você não sabia para que lado ir, então usava navegação às cegas”, conta Reinaldo Varela, enquanto Alberto Fadigatti lembra da situação que obrigava a uma redução de velocidade. “Não é que não tem luz, mas a luz difusa bate naquela areia marrom e você não enxerga nada. Mas também dura pouco e você não pode parar, pois pode atolar e alguém vir atrás”.

Outro revés veio envenenado, quando o navegador foi picado no braço direito por um escorpião que entrou em sua barraca. “Tinha muito escorpião no chão. Nesse dia, resolvi dormir no carro, que era mais seguro”, conta Walther Neto. Ao amanhecer, Fadigatti, apesar dos cuidados, foi picado por um escorpião que estava dentro de seu uniforme. Correndo para o posto, os cuidados foram tomados para conter o veneno. Ao correr, além dos dados, o navegador teve de lidar com a dor e a sensação de anestesia no braço direito.

Para Fadigatti, mérito mesmo tem de ser dado aos pilotos de moto. “Cada cidade que tiver um cara desses tem de fazer uma estátua para ele. O Zé Hélio (José Hélio Filho), o Marco Ermírio de Morais, o Flávio Iguana (Flávio de Carvalho) e o Dimas Mattos estão sozinhos. Se atolam, como fazem para tirar uma moto que pesa 150 kg? Ela vai pesar quatro toneladas quando atolar. Eles não vão conseguir tirar”, descreve.

Naquela prova, Flávio seria o melhor dos brasileiros em duas rodas, chegando em 23º lugar, com Marcos Ermírio em 26º e Dimas em 27º. José Hélio abandonaria a prova na quinta etapa.
Vitória no Marrocos
Após a Tunísia, a equipe teria mais de um mês de preparação para o Marrocos e a folga dos 57 pontos, contra os 48 de Gerard Marcy e Jean Paul Cottret. A prova, realizada entre os dias 22 e 27 de maio, acabaria sendo influenciada por uma particularidade alimentar de Fadigatti. “Não como feijão nunca. Na Europa a gente comia arroz, salada e carne, tudo menos feijão. Então para mim estava ótimo”, conta ele, referindo-se aos períodos de oficina em Portugal, regados a presunto cru espanhol (jamón ou pata negra). “A gente comprava um desses e ficava no presunto, vinho e queijo. E era isso que a gente comia”, conta o navegador.


O gosto pelo pata negra acabaria sendo transportado de navio dentro da Ford Transit de rodado duplo que servia como veículo de apoio para a equipe. “Era nosso veículo de carga e a gente tinha um presunto pendurado nele”, conta Fadigatti. Dentro do navio que transportava os competidores de Portugal a Marrocos, surgiu um entrosamento com uma equipe francesa, bem como o lanche ficava mais reforçado com os insumos que eles possuíam.
Dada a largada em 23 de maio, a primeira etapa, em Ouarzazate, reservaria um grande susto nas muitas pedras do percurso, com uma pancada que atingiu o lado traseiro esquerdo do Troller no 64º quilômetro e quebrou simultaneamente freio e amortecedor daquele lado, bem como fez a roda se soltar e percorrer cerca de 200 metros. Analisando os danos, apenas um dos prisioneiros estava intacto. “Quem estava perto da roda? Os dois franceses da noite anterior, do presunto”, conta Fadigatti sobre a caminhada que empreendeu até achar o conjunto perdido. Coincidentemente, os franceses também estavam parados por quebra. Naquele dia, muitos haviam quebrado.

Varela e Fadigatti, que estavam no 20º lugar no geral e já haviam ultrapassado sete carros, necessitavam de algum improviso, uma vez que o pouco espaço do Troller não permitia carregar a minioficina que os competidores com carros maiores levavam. Tentou-se ficar com o único prisioneiro que sobrou, mas este quebrou. A experiência de muitos anos de rali recomendava que se tirasse parafusos do santo-antônio, que seriam compatíveis em função, mas esses não eram. A solidariedade acabaria vindo dos amigos de lanche náutico, que tinham três prisioneiros. Com um certo trabalho de talhadeira, eles caberiam no Troller, que prosseguiu na competição, com paradas espaçadas para conferir o aperto das rodas. Porém, o episódio todo custaria três horas de demora para completar a etapa especial, de 307 quilômetros, mais uma penalização de dez horas.
Por causa disso, a segunda etapa marcaria uma corrida de recuperação. Disputada entre Ouerzazate e Erg Lihoudi, em 24 de maio, foram 397 quilômetros beirando os penhascos da cordilheira do Atlas. Nesse ponto, a regularidade acabou compensando, em que pese a necessidade de andar mais forte para compensar. “Eu dizia: ‘Reinaldo, olha um ali (quebrado). Menos um, menos um’”, conta Fadigatti. Isso se traduziu em vitória naquele dia. Porém, o ritmo adotado cobraria seu preço com o navegador desmaiando por queda de pressão por causa do sol e os cerca de 50ºC no interior do Troller. A dupla sofreria também um desgaste por causa de um pneu furado pelas pedras.

Vitória também seria o resultado na terceira etapa do rali, que os alçaria para o 19º lugar no geral da competição, disputada por 43 carros. Os 248 quilômetros de etapa especial indo e voltando a Erg Lihoudi, foram percorridos em 6 horas, 39 minutos e 5 segundos.
A última etapa marroquina, retornando a Ouarzazate, marcaria a manutenção do 19º lugar no geral e a vitória na T3.2 confirmada após 2 mil quilômetros percorridos em 32 horas, 1 minuto e 35 segundos. A dupla passaria a 84 pontos e abriria ainda mais em relação aos 48 de Marcy e Cottret. As preocupações ficavam agora para 21 de junho, quando começaria o rali em Portugal.

…continua no próximo capítulo
Fotos: divulgação / cortesia de Walther Neto








Essas histórias de rali são sempre incríveis e recheadas de fatos inusitados pra contar! Me lembro de… não sei se foi nessa edição… mas o radiador dos caras furou, e o Alberto Fadigatti conseguiu um ovo com um nativo da região, e jogaram o ovo no radiador. Rodaram 410km com o ovo cozido tampando o furo, e só desmanchou faltando 60km para a chegada no acampamento!
Esses são melhores que o Macgyver !
Competidores de Rally tem um parentesco muito próximo com o Macgyver
<img src="http://www.ahtabom.com.br/wp-content/uploads/nascimento-macgyver.jpg">
Meu único problema com rallies seriam as aranhas e escorpiões…
Tenho aracnofobia TENSA, agora de resto? seria uma experiencia incrível!
Somos dois. Se aparecer uma aranha eu iria ficar paralisado hahah
Eu tenho um cagaço monstruoso por escopiões,mas de resto eu tiraria de letra,principalmente se tiver vinho ou presunto para comer,ficaria tranquilo,rsss !
Não precisa ser aracnofobico para correr de um escorpião, basta ver aquele troço olhando para você tipo "mova-se e eu atiro".
HAHAHAHHA
Uma das emoções mais fortes que tive foi quando achamos uma Aranha marrom no meio das bananas no antigo hortifruti que meus pais tinham…
Matamos ela, eu taquei álcool e fogo "só para garantir", sabe?
AHHAHAHHAHAHAH
E como sei… Lembro de certa vez que fui à casa na serra de Guaramiranga, do tio de um primo para passar o carnaval. Assim que entro no banheiro do quarto, tinha uma dessas marron, do tamanho da minha mão, olhando para mim de cima do aparelho sanitário. Quase parto a privada ao meio da lapada que dei nela com um cano de ferro.
E depois a "purificação", com alcool e fogo. hehe
Tenho um amigo que costuma matar aranhas com aqueles maçaricos que funcionam com fluido de isqueiro…
Só pra garantir tb!!! uaehuheuhuaeeuaeauehauehaueaeaeauheau
Aranhas e escorpiões são bichos deverasmente medonhos!!!
lol, imagina levar um cambio na mochila. hehe
Agora, chuuuuuupa Nissan! Incrivel como o Troller aguentou todas essas porradas, dunas, pedras, tempestade de areia e afins. Nada como um bom nacional, para passar na cara de um bando de brasileiro bucha que acha que só temos/fazemos lixo.
<img src="http://jaymckinnon.com/blog/wp-content/uploads/2010/02/matrix_punch.jpg">
To gostando bastante dessa série.
Esse é um tipo de historia,que eu fico imaginando,criando um pequeno filme na minha cabeça,sobre os fatos da corrida,estes pilotos são verdadeiros campeões,sem sombra de duvida,imagine cozinhar dentro de um troller a 50 graus !!!!!!
Não vejo a hora de chegar o próximo capitulo desta historia !!!
Gostava de carros, mas confesso que o Jalop deu uma alavancada nesse gosto. Comecei a conhecer mais desse universo e tenho tido um apreço especial por rallys, mesmo que ainda não entenda muita coisa. Séries como essa, portanto, sempre serão bem vindas!
Dinheiro brasileiro, tecnologia brasileira, jipe brasileiro, pilotos brasileiros, tudo isso trazendo o mais prestigioso dos títulos mundiais para cá. Por que a merda do povo brasileiro insiste em F1 e futebol então?
Rally é esporte de verdade, ao contrário de futebol, basquete e volei, rally exige DUAS bolas.
A lanterna traseira de Ranger era exigência do regulamento?
Pena que a Troller foi vendida para a Ford e muitos dos proprietários tratam seus modelos como brinquedinhos de luxo ao invés de jipes de verdade. Mesmo assim, um bom e velho T4 pré-Ford está na lista dos carros que ainda terei, pena o preço ser tão proibitivo atualmente.
na verdade a compra pela Ford também teve seu lado bom algumas peças ficaram mais fáceis de achar e até mais baratas (algumas), só não compraria um T4 agora, pelo menos não um novo, a fábrica dá Troller atualmente está em reforma, para adaptar as instalações para criação de um novo modelo, talvez um novo T4
A Ford melhorou MUITA coisa no T4, meu amigo, e não foi só acabamento não…
Meu problema com a compra pela Ford não é em relação a qualidade de construção (apesar de achar aquele painel de Fiesta muito pior que o de Gol bola), mas sim pelo fato de uma empresa nacional deixar de ser essencialmente nacional. Querendo ou não, a Ford decide os rumos da empresa agora, mesmo que o exército reclame (como o fez durante a compra) ou os trilheiros lamentem. Sei que crescerá bem mais agora e terá projetos melhor executados, mas essa falta do 100% nacional é que me incomoda.
Quanto a compra de um T4, não seria algo por agora mas sim bem para a frente, esperando o pré-Ford desvalorizar (o que parece que vai demorar bastante) e podendo ter um carro robusto mas sem muita capacidade de carga.
Ele ainda continua 100% nacional, excerto pelo MWM que era usado mesmo antes da Ford.
É o que eu falei o outro post: a compra e controle da JLR pela Tata não as fizeram virar indianas, idem para a Volvo com a Geely ditando as regras.
Mas entendi seu ponto de vista.
Falando sério, ficou bonito.
Nossa, AF… Ótima matéria, essa sua. Será que tem alguma gravação original das etapas aí pelo youtube? Se tiver, seria legal incorporar ao próximo capítulo.
<img src="http://www.jalopnik.com.br/wp-content/uploads/2012/05/MVC00112-e1338044608415.jpg">
Utilizando rodoar… pra mim isso é novidade, já usavam isso antes nos rallyes?
As outras fotos dizem que não.
Só queria saber que compressor que usaram para tocar o rodoar.
Histórias de rally são sempre sensacionais,essa do Troller,o BMW de 500 dólares e etc.São elas que me dão mais orgulho de ser gearhead.
Mto massa essa série do troller! Puta carro! Queria um desses!
Podia rolar uma matéria tbm sobre o camel trophy tbm!
Ótimo texto, por sinal.
Uma pena que o Dakar não voltou mais à África.
Show de Bola o texto amo rallys!!