19 de Junho de 2013
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Coberturas de motor são obra do demônio

Por - Sam Smith - 15 mar, 2010 - 13:38

4 Comentários

Já se foi o tempo em que a maioria dos carros cobria seus corações apenas com pequenas tampas de válvulas. Essa simplicidade foi trocada por um esconde-esconde em almas de plástico. Já é hora de acabar com isso.

Era simples: você abria o capô, via um monte de coisas bacanas, ficava feliz. Mesmo que não entendesse o que se passava ali, pegava uma lanterna e se divertia, olhava e mexia. Talvez até desconectasse algo, curioso sobre por quê este sensor seguia aquela fiação e pra quê servia tudo isso. Bons tempos.

Vivemos agora em uma era de um eterno polimento, e se algo não foi escovado e suavizado até a alma, então nós não somos dignos de vê-lo. A cobertura do motor é o equivalente mecânico do photoshop no corpo das supermodelos veteranas, uma fantasia de consumo que mostra às massas apenas aquilo em que querem acreditar. Sou limpo. Sou forte. Não vou te machucar. Uma máquina politicamente correta.

Que vão para o inferno. O motor de combustão interna é sujo, mau e indisciplinado, e apesar de ficar cada dia mais domesticado, ainda é um monstro violento. Absorve um veneno inflamável e carrega milhares de volts em seu interior. Move montanhas de ferro, aço e alumínio com força suficiente para serrar um homem ao meio. É agressivo, é cruel, e estou cansado dessa maquiagem. A cobertura do motor deve morrer.

Esta não é uma opinião isolada. As pessoas gostam de apreciar a arte dos engenheiros. Mesmo aquele seu vizinho que não desgruda da TV já deu uma olhada no bloco do motor de seu Fusca, após trazê-lo da loja de usados. Até minha avó costumava olhar o motor de todos os carros que comprou, e ela não sabia diferenciar uma válvula de escape de um exorcismo. Se você falar com o pessoal do marketing, vai ouvir que a cobertura foi pensada para essas pessoas, para reduzir o ruído e o impacto visual. Pura balela. Talvez um murro na boca fosse melhor para “essas pessoas”.

Admito que a cobertura nem sempre seja algo ruim. No mundo dos supercarros, um espetáculo visual é obrigatório, e o compartimento do motor de um deles costuma ser uma obra-prima em apresentação e elegância – versões de esportivos com peso reduzido ou para competição, obviamente, não perdem tempo com tampas plásticas – E os produtos de baixa escala, incluindo a multidão de carros elétricos, não podem ser julgados com os valores tradicionais. Mas estas são as exceções. A cobertura do motor se encaixa na definição de “decepcionante” (BMW 760Li? Tem um 6.0 V12 twin-turbo sob isso? Até a programação da tarde parece mais interessante), e sua presença não é nem lógica ou previsível.

Acura TL vs. Chevrolet Corvette ZR1

Você pode entrar em uma concessionária Acura – que não é famosa por sua ousadia… – e comprar um sedã de luxo com uma preciosidade prateada sob o capô (o V6 acima), mas o Corvette ZR1 de 608 cv sai de fábrica com um assento sanitário sobre o supercharger (abaixo), à primeira vista você poderia confundi-lo com a bateria de um Toyota Prius. Abriram uma janela no capô para isso?

Mazda RX-8

Não ligo que esteja em extinção. Este é o único carro movido por um motor rotativo, e seu compartimento poderia se passar por uma cozinha planejada. E daí que o Renesis parece uma porcaria sem suas roupas? No final das contas, o 13B também parece, e mesmo assim todos o adoram. Mazda, deixe o coração do RX-8 exposto. Você fabrica carros esportivos, e não móveis de cozinha.

Lexus IS-F

O primeiro carro esportivo de uma marca que não é lembrada pelo arrojo. Os gerentes da Lexus queriam que ele fosse diferente, então fizeram o quê? Deram a ele a tampa de um Tupperware. Remova essa tampa, e você verá um emaranhado infernal de tubos e cabos para ninguém botar defeito. Você já viu algo assim sob o capô de um Mercedes-Benz C63 ou BMW M3? Compradores de übersedãs gostam dessa bagunça, não ignorem isso.

A humanidade adora máquinas. Não se pode ignorar a necessidade de um bela paisagem mecânica. Nem sempre isso faz sentido, e nem sempre é lógico. Só para se ter uma ideia, um cara construiu um Fieroghini, colocou um LT1 V8 de 608 cv, e então levou uma eternidade para esculpir um V12 Lamborghini sobre tudo isso.

Se isso não diz algo sobre a complexa relação que as pessoas têm com motores, então não imagino o que diria.

De certa forma, pode se resumir a isso: a aparência de uma máquina é uma janela para sua alma. Você pode olhar para o acabamento de um escapamento ou do bloco e ver os rostos de seus responsáveis. Você pode aprender sobre uma companhia examinando como seus engenheiros resolveram uma tarefa específica, e o quanto sentem orgulho de seu trabalho. Mesmo que você não seja um obcecado, o carro pode ser a fonte de sentimentos muito fortes, e o motor é uma parte da origem nessa relação. E você não pode aproveitar uma tarde de domingo bebendo cerveja e apreciando um pedaço de plástico.

Mais uma coisa: apesar de me classificar como um fanático, falo também pelas pessoas comuns. Um fanático pode abrir o capô e remover o que quiser, girando chaves até ficar satisfeito com o que tem. Os Josés da Silva estão à mercê dos fabricantes. E apesar da maioria não ter a menor ideia do que acontece ali, muitos silenciosamente querem algo mais. Estão abandonados e esquecidos e, apesar de não saberem o que está errado, eles não gostam desta situação. E eles precisam de nossa ajuda.

Em favor deles, vá à sua garagem. Abra o capô. Se lá estiver algo plano, uma pilha de polímeros sem alma olhando para você, mostre a sua revolta. Remova-o, queime-o, e assista sua destruição. Quando a chama se apagar, mande o pedaço de lixo de volta ao fabricante, derretido como estiver. Provavelmente não vai fazer a menor diferença, mas toda jornada começa com um primeiro passo.

 


4 respostas para “Coberturas de motor são obra do demônio”

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