Stirling Moss e a criação do papel de navegador na Mille Miglia de 1955

De tempos em tempos surge uma união perfeita entre homem e máquina. Uma combinação harmônica que se prova invencível e escreve um novo capítulo na história do automobilismo. Um destes capítulos foi escrito por Stirling Moss, o co-piloto Denis Jenks e um Mercedes-Benz 300 SLR ao longo de 1.614 km de estradas italianas da edição 1955 da Mille Miglia.

Em 1955 Stirling Moss já era considerado um dos melhores pilotos do mundo, e o principal rival de Juan Manuel Fangio – o que ajuda a explicar sua grandeza mesmo sem um título de Fórmula 1 no currículo. Naquele ano ambos foram contratados pela Mercedes-Benz para pilotar as Flechas de Prata ao lado dos alemães Karl Kling e Hans Hermann e do americano John Fitch – não apenas na Fórmula 1, mas também em competições como a Carrera Panamericana, 24 Horas de Le Mans e a Mille Miglia.

A Mille Miglia era uma corrida disputada em vias públicas italianas, formando um circuito de 1614 km (1000 milhas) com ponto de partida e chegada em Brescia. A equipe correria com quatro 300SLR, um para cada piloto. Fangio teria como co-piloto seu mecânico desde os tempos da Alfa Romeo, e Kling decidiu correr sozinho. Inicialmente John Fitch seria um dos pilotos e seu companheiro seria Denis “Jenks” Jenkinson, um jornalista inglês com alguma experiência em corridas de motos.

Em suas primeiras conversas “Jenks” e Fitch concluíram que a única maneira de derrotar os italianos nas estradas que eles conheciam seria usando disciplina e metodologia, e Fitch explicou sua ideia de escrever um livro de bordo onde anotariam cada uma das curvas do trajeto para que o co-piloto instruísse o piloto como contorná-las. À primeira vista um jornalista automotivo franzino não parecia a melhor escolha para uma corrida de mais de 1.600 km, já que os co-pilotos estavam mais para mecânicos de bordo que navegadores. Mas Jenks tinha 1,52 m de altura e peso inversamente proporcional à sua coragem e inteligência.

Fitch acabou negociando com a Mercedes para correr nas 24 Horas de Le Mans daquele ano, e seu lugar na Mille Miglia foi ocupado por Stirling Moss. Quando Moss convidou Jenks para ser seu co-piloto, o jornalista aproveitou a chance e perguntou a Fitch se poderia realizar a ideia das anotações da pista.

Com a permissão de Fitch, Jenks arranjou um rolo de 5,5 metros de papel fino e montou em uma caixa impermeável com dois cilindros móveis sob uma película transparente para que pudesse ler as instruções enquanto o carro cruzava a Itália em alta velocidade. Durante os três meses de treinos ele anotou cada curva, cada reta e todo tipo de característica do percurso para que Moss pudesse explorar o máximo do carro.

A ideia era tão inteligente quanto inédita e perigosa, e por isso Moss não estava totalmente confiante, mas acabou aceitando ao concluir que Jenks também sofreria as consequências de um eventual erro. Impossibilitados de ouvir um ao outro em um carro de corrida sem capota, a dupla combinou um sistema de gestos como forma de comunicação.

Antes de começar a corrida, Moss acreditava que chegaria em terceiro, pois o veterano Kling já havia memorizado todo o percurso e Fangio… bem, era Fangio, que acabou correndo sozinho, pois seu co-piloto falecera pouco tempo antes.

Na tarde de 30 de abril de 1955 os carros começaram a largar em intervalos de um minuto, iniciando pelos mais lentos. Com mais de 700 carros inscritos, os Mercedes-Benz largaram somente na manhã seguinte: Fangio às 6h58min e Moss somente às 7h22min (daí os números 658 e 722). A dupla britânica imprimiu um ritmo forte desde o começo da corrida, de modo que ao chegar em Roma – depois de cerca de 600 km – já eram os líderes.

O primeiro problema enfrentado por Jenkinson e Moss foi o enjoo do co-piloto, mas este era um motivo pelo qual nenhum dos dois estava disposto a reduzir a velocidade. Quando a corrida chegou à costa do Mar Adriático Moss acelerou seu Mercedes até a velocidade máxima de 274 km/h a 7400 rpm. O motor chegava frequentemente a 7500 rpm e em duas vezes atingiu a rotação máxima de 7700 rpm sem grandes consequências.

As notas realmente estavam funcionando, apesar de um leve inconveniente. As pequenas ondulações das retas não pareciam um grande problema durante os treinos – que foram feitos em velocidades legais – mas a 250 km/h faziam o carro dar longos e perigosos saltos. Outra dificuldade encontrada pela dupla eram os pilotos mais lentos que encontravam pelo caminho. As rodovias italianas, na época, tinham inclinações acentuadas nas bordas da pista em alguns trechos, o que contribuía para jogar o carro para fora das curvas.

Além do talento de Moss e da disciplina de Jenks, a prova exigiu uma boa dose de sorte: o 300 SLR saiu da pista três vezes. Na primeira o carro escapou em uma curva e e atravessou uma barreira de palha. Na segunda, Moss sentiu um leve mal-estar e na terceira os freios acabaram e o carro caiu em uma vala, exatamente no único ponto em que o desnível era pouco.

Apesar da carroceria amassada e de correr 480 km sem pastilhas nos freios dianteiros Moss venceu a prova no tempo recorde de 10 horas, sete minutos e 48 segundos, com uma impressionante média de velocidade de 157,63 km/h. Fangio chegou em segundo, quase meia hora depois de Moss.

A prova teria somente outras duas edições, a última delas em 1957, quando dois graves acidentes mataram os pilotos Josef Göttgens e Alfonso de Portago, seu navegador Edmund Nelson e nove espectadores – sendo cinco crianças. O recorde de Moss não foi superado em nenhuma das edições posteriores.

O Mercedes-Benz 300 SLR tornou-se um dos maiores ícones do automobilismo, com edições comemorativas baseadas no SLR McLaren moderno. Stirling Moss sofreria um grave acidente em 1962, o que causou sua aposentadoria precoce. Denis Jenkinson morreu em 1996 depois de uma longa carreira dividida entre o jornalismo e as pistas – onde foi campeão como co-piloto de sidecar, o que definitivamente o credita como louco. É considerado o inventor das “pacenotes”, as anotações de percurso usadas até hoje pelos pilotos de ralis.

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26 Responses to “Stirling Moss e a criação do papel de navegador na Mille Miglia de 1955

  1. M.Finesse says:

    Já sabia dessa monumental história; literalmente do tempo em que GIGANTES caminhavam sobre a terra (parafraseando F.Miller…)!

  2. Crazy_finnish L6 4.1 says:

    Parabéns pelo post Leo, ótima história, que demonstra que só pé embaixo não ganha corrida. É preciso inteligência para saber como se portar frente aos desafios.

    P.S.- Isso é que são cicatrize de batalha, no focinho da 300 SLR

  3. AndreNascentes says:

    Que historia maravilhosa! Todos que terminaram essa provas são herois.

    ps: "Stirling Moss sofreria um grave acidente em 1962, o que causou sua aposentadoria precoce." Negativo. Stirling Moss se aposentou esse ano aos 81 anos. http://www.reuters.com/article/2011/06/09/us-moto…

  4. MathewBMW says:

    Também foi por causa das 7h22min (722) que veio a "inspiração" para a SLR McLaren 722 Edition.
    Aquela versão que pulou de 626 para 650 cv, entre otras cositas más.

    <img src="http://www.babez.de/mercedes/slr722mclaren/mercedes-benz-slr-722-mclaren-edition-titel.jpg"&gt;

  5. bira says:

    Metodologia, disciplina, conhecimento e estratégia. São Itens presentes na maioria dos casos de sucesso!

  6. Fla3D says:

    Belissima história, de tirar o chapéu!

  7. brunollo says:

    Esse é o tipo de história que me faz sentir um banana por trabalhar na frente de um computador… Daí lembro dos fins de semana e das horas-aulas de vôo que tenho acumulado pra tirar um brevê e me sinto um pouco melhor.

  8. Osni says:

    Mas cá entre nós, o Fangio, sem co-piloto (navegador), chegar só meia hora depois foi F#$a.

  9. MPeters says:

    Essa história é demais, agora eu sei a importância do 300 SLR.

  10. ALFA_MOBILI says:

    chupa Fangio! haha

    "…correr 480 km sem pastilhas nos freios dianteiros" – O.O

    Moss…a true racing warrior!

  11. escorte says:

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