19 de Maio de 2013
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Eu morei por dois anos em um motor home à beira-mar – e foi sensacional

Por - Benjamin Preston - 19 ago, 2012 - 21:26

32 Comentários

Quando a maioria das pessoas pensa em alguém vivendo em um trailer à beira de um rio, a primeira imagem que vem à mente é a de um estranho solitário, um junkie sem futuro ou algum louco natureba. Mas eu vivi assim por dois anos, e era jovem e até bonito, e tinha um bom emprego. Na realidade, tinha minha própria casa e não precisei fazer um contrato de financiamento que duraria 60% da minha vida. Eu era o senhor do meu destino e isso é muito bom.

O que você faz quando mora em um trailer? Você faz festas com ele, dentro dele, ao redor dele, acende fogueiras em frente a ele, e inventa histórias sobre as mulheres que você levou (ou sonha que levou) para passar uma noite lá dentro. É o quartel-general móvel definitivo para qualquer homem jovem e solteiro.

Minha casa era um motorhome Classe C (veículos baseados em plataformas de caminhões, um grau abaixo dos Classe A, baseados em ônibus), e o rio não era um rio de verdade, mas sim um mangue meio feioso. Eu faria tudo por um rio de verdade.

Ao menos o oceano estava tão perto quanto o mangue. Sua água azul brilhante estava logo no outro lado da rua. O trailer ficava estacionado próximo a uma casa abandonada em Isla Vista, na Califórnia – um reduto de estudantes ao lado da Universidade da Califórnia em Santa Barbara – onde milhares de garotas entre 18 e 25 moravam. Não preciso dizer o que isso significa.

Vejamos, as praias do Sul da Califórnia, garotas por todos os lados, meu próprio quarto com energia elétrica, água corrente e uma casa cheia de bons amigos… acho que fica claro por que isso foi tão legal.

A ideia de morar em um trailer não era recente para mim. Quando eu era inspetor de uma empresa de dragagem, um dos caras da minha equipe insistia em morar em um motor-home montado em uma van Dodge 1979, enquanto trabalhávamos por toda a Costa Leste dos EUA. Todos os outros caras ficavam em luxuosas casas alugadas enquanto ele acumulou vários milhares de dólares em diárias economizadas. Sua casa móvel era pequena, mas tinha uma boa distribuição interna, e seria um bom lugar para viver se ele ao menos a mantivesse mais arrumada. Ele também nunca conseguiu eletricidade e água, por isso os invernos eram terríveis para ele. Para mim, não.

Alguns anos mais tarde, durante o verão de 2007, quando eu fui um dos vinte e poucos supervisores de salva-vidas do Departamento de Parques do Condado de Santa Barbara, lembrei da ideia daquele cara e pensei comigo: “é um ótimo jeito de guardar dinheiro”.

A ideia foi reforçada pelos caras que trabalhavam comigo na praia de Jalama, um parque remoto (e lindo) entre Point Conception, e a Base Aérea de Vandenberg. Fica a uns 80 km de Santa Barbara, por isso eles normalmente passavam três ou quatro dias seguidos ali, morando em um velho trailer doado por um guarda veterano que vivia no parque. Toda vez que eu ia até lá para supervisioná-los, eu via o velho trailer e ficava pensando loucamente a respeito.

Eu havia recentemente sublocado um quarto de um bando de estudantes que encontrei no Craigslist, e o cara com quem eu dividia o quarto (um cara legal, mas bagunceiro) queria seu espaço de volta no fim do verão. Na mesma época Dave, o guarda veterano que doou o trailer aos meus subordinados, estava mudando-se do parque para morar em um pequeno chalé em uma cidade vizinha. Isso significa que ele precisava se livrar de tudo o que tinha, incluindo seu motorhome Holiday Rambler 1978 de 8,5 metros – um pouco velho, mas muito bom.

Embora sua carroceria desbotada já tenha passado por dias melhores – as partes metálicas estavam começando a enferrujar e o plástico estava quebradiço ou empenado – por dentro ele era uma discoteca setentista esperando por uma festa. Em estado quase novo, tinha carpete felpudo no chão e no teto, paredes de madeira, estofos bordados, e uma parede de tijolos falsos atrás da pia e do balcão da cozinha. Ainda que eu não pretendesse dirigi-lo, o chassi Ford sobre o qual a carroceria de alumínio foi erguida arrebatou meu coração gearhead. Ele tinha um V8 460 (7,5 litros) sem abafador e uma transmissão C6 conectada direto ao eixo duplo traseiro. Muito além de seus atributos mecânicos, ele tinha alma, também. Talvez por ter gente fazendo coisas a bordo o tempo todo e vivendo uma vida ali, ele parecia um ser vivo.

O Rambler, como ele ficou conhecido entre meus amigos, era fantástico, e eu imediatamente avisei a Dave que estava interessado em ficar com ele. Dave é um daqueles caras à moda antiga que não gostam de vender as coisas a menos que estejam em perfeito estado de funcionamento, por isso eu tive que esperar o verão inteiro até que ele consertasse um problema na linha de combustível e comprasse os seis pneus novos. Logo o verão acabou e o carro estava pronto para ser vendido por 1200 dólares em cima da hora. Depois de pagar 600 dólares por mês para dividir um quarto pequeno com um cara bagunceiro, ter meu próprio quarto – que eu poderia levar para onde quisesse – era um sonho tornando-se realidade.

Logo de cara decidi que não rodaria com o Rambler por aí, nem mesmo para um pequeno descanso em outra praia. Além da experiência traumática de levá-lo a uma oficina local (perdi meu espaço de estacionamento o dia todo, e o trailer é enorme e nem um pouco legal de dirigir), eu havia arrumado meus livros, meu toca-discos e uma pilha de LPs, e até uma luminária novava, e não gostaria de ter que arrumar tudo de novo. Além disso, não vamos esquecer que um V8 de 7,4 litros empurrando algo daquele tamanho não é o motor mais econômico do mundo. E havia ainda algo pior: e se eu batesse minha casa? Perderia minhas acomodações de rei e teria que dormir em um sofá onde milhões de estudantes derrubaram cerveja e vomitaram, até encontrar algo melhor? Não, obrigado. Já disse que o Oceano Pacífico ficava logo no outro lado da rua e o lugar estava repleto de estudantes gatíssimas?

Sabe qual a melhor parte? Meus colegas de quarto não haviam encontrado um substituto para mim em seu esquema complexo de locação. Já havia três caras morando na casa principal – um chalé antigo que foi movido do centro da cidade e reinstalado como um dos chalés originais de Isla Vista – outros dois morando em uma cabana de ferramentas adaptada, dois em um quarto pequeno atrás da garagem, e outro em uma pequena cabana no jardim, apelidada de “petit chateau”. Ficou decidido que eu pagaria a moça da limpeza e em troca ocuparia o quintal da república. Ela vinha uma ou duas vezes por mês, e cobrava 60 dólares para fazer o possível para dar um jeito na bagunça de um bando de universitários. Por mim estava tudo bem. Eu já disse que o Oceano Pacífico ficava logo no outro lado da rua e o lugar estava repleto de estudantes gatíssimas?

Por isso ele ficou mais ou menos no mesmo lugar por dois anos. E que temporada foi essa. Isla Vista é uma das cidades mais loucas para se fazer uma festa, mas o Rambler era uma ilha de tranquilidade na ilha da loucura. Durante o tempo que morei lá, eu participei de algumas festas, mas várias vezes preferi ficar sozinho e ouvir música, ler ou passar um tempo com amigos mais tranquilos.

Nos últimos meses que passei lá, o barulho de vidro quebrado, brigas, gente urinando perto do meu trailer, e de garotas gritando não alterava a serenidade que eu sentia ao ler um livro ou apenas por estar lá, admirando pensativamente o céu através da clarabóia.

Um dos meus colegas concordou que aquele era o lugar mais calmo da cidade, e ajeitou um cantinho para estudar para as provas finais de cada semestre. Era tranquilo, mas melhor que a biblioteca da faculdade devido ao conforto. Era comum eu chegar depois de um longo dia de trabalho no jornal Santa Barbara Independent (fui demitido do trabalho de supervisor) e encontrá-lo sentado na poltrona ao lado de uma pilha de livros e outra de energéticos.

Para mim era o espaço perfeito. Tinha uma cama queen-size, um sofá grande e algumas poltronas giratórias, um lugar para meu rádio, uma cozinha, um banheiro funcional, um closet para minhas roupas, e espaço suficiente para dormir, trabalhar, me exercitar, alongar, e receber seis ou sete pessoas (às vezes até mais). Uma coisa era certa: em um espaço tão apertado as coisas precisavam ficar em perfeita ordem, ou eu acabaria como meu colega da época da empresa de dragagem.

Com exceção da vez que uma forte chuva de inverno causou um curto-circuito na fiação elétrica, que me deu um puta choque quando tentei abrir a porta, o Rambler encarou estas tempestades sem grandes problemas. Certa vez uma garota bêbada subiu no teto com um costa-riquenho e acabou pisando em uma das clarabóias, mas eu não precisei fazer muito além de consertar a vedação da abertura, colocar uma bateria nova, e reformar o terrível carburador Rochester. Eu nem me incomodei muito com estes dois últimos itens até a hora de vendê-lo.

Eu era um pouco mais velho que a maioria dos colegas da casa onde morava, então havia amigos da minha faixa etária que evitavam me visitar no trailer, mas aqueles que foram nunca se arrependeram. Uma vez um amigo meu teve a coragem de vir do outro lado do país. Quando ele chegou, assumiu a posição padrão: comportou-se como um adulto, conversou sobre trabalho e tentou ignorar o fato de estarmos cercados por universitários. Mas acabávamos bebendo e retrocedendo nossa idade mental até começarmos a correr e gritar como moleques de 15 anos bêbados. Tenho quase certeza de que uma das poltronas pegou fogo naquela noite.

Apesar do fato de que as garotas de todas as idades não se importavam em festejar no velho motor-home que alguns diziam ser a antítese do “carro de pegar mulher” (vai ver foi a decoração de natal), houve um momento em que uma delas acabou se tornando minha namorada, e me confessou indiretamente que preferia que eu não morasse em um motor-home no quintal de uma república de estudantes. Então eu fui morar com ela, mas levei o motor-home junto – para seu desgosto – e assim ele começou sua terceira encarnação, tornando-se um quarto de hóspedes, meu escritório, e um salão de festas para universitários de todas as idades. Os discos na vitrola aos poucos foram de Black Sabbath e James Gang a Stan Kenton e Herbie Hancock. Vinho e coquetéis também deixaram de aparecer à medida em que os caras foram ficando mais velhos. Mas ainda foi uma época legal, embora eu não tenha voltado a dormir lá.

Tudo o que é bom tem um fim, e assim foi com o Rambler. Depois de terminar com minha namorada que não gostava de motor-homes e de decidir mudar para Nova Iorque por um ano, chegou a hora de me despedir da venerável festa sobre rodas. Ele passou quase todo o verão na casa do meu chefe, por isso as únicas criaturas que moraram nele foram alguns ratos que fizeram um ninho na pia usando papel higiênico.

Logo antes de mudar para o leste, limpei a bagunça que os roedores fizeram e vendi o Rambler a um jovem casal hippie que queria morar nele enquanto estudavam no Santa Barbara City College. Torci para que as velhas e ressecadas correias e mangueiras funcionassem e aguentassem até que eles chegassem onde queriam. Eu disse a eles que o carro estava “original”, mas não sei se eles escutaram, de tão empolgados que estavam. Deveria ter sido o fim, mas o Rambler fez uma aparição uns seis meses depois.

A ex-namorada que odiava motor-homes trabalhava em um escritório localizado no fim de uma rua sem saída que era bastante usado por moradores de trailers como estacionamento. Ela odiava tanto a vista do conjunto de motor-homes decrépitos que sempre chamava a autoridade de trânsito para rebocá-los.

Já acostumado ao ritmo de vida enlouquecedor de Manhattan, recebi um texto inesperado dela. Dizia algo como “O Rambler está me seguindo. Ele está em frente ao meu escritório há uma semana”. Sem um lugar para estacionar, os hippies levaram o Rambler ao lugar mais óbvio que eles pensaram.

Não sei. Talvez esse negócio tenha alma e voltou para vingar a falta de respeito que recebeu dela. Certamente não foi isso. Mas ele foi uma bela plataforma para todo tipo de drama humano que se desenrolou sobre ele nos dois anos em que o tive. No fim das contas, você não pode querer muito mais de um objeto inanimado.

Crédito das fotos: Marissa Leigh Salem; Benjamin Preston; Liznasty; Claire Norman

 


32 respostas para “Eu morei por dois anos em um motor home à beira-mar – e foi sensacional”

  1. Hos_Delgado disse:

    Ficou decidido que eu pagaria a moça da limpeza e em troca ocuparia o quintal da república. Ela vinha uma ou duas vezes por mês, e cobrava 60 dólares para fazer o possível para dar[...] JURO que li "eu pegaria" e "Ela faria de tudo por 60 dólares" AUAHUAHUAHAHUHAUAHAHUAHUAHUHAUAHU

    E nossa senhora! Que bela história, merecedora de um filme…ou quem sabe livro. O texto foi muito bem feito e eu me senti imerso nessa ótima história da vida real, e pensando bem…eu adoraria morar num trailler -nas devidas boas condições, claro – e viver umas boas histórias haha.

  2. Vette_ZR1 disse:

    Primeira coisa que pensei : Ah, se eu pudesse ter um motor-home =T

  3. @JABE36 disse:

    deve ter sido um experiencia boa e economizado bastante.

  4. mansadodeputa disse:

    Um bom texto deu ate vontade de morar em um motor home , mas aqui no brasil deve ser inviavel , pois aqui roubam qualquer coisa sobre rodas .

  5. Weisser disse:

    sempre que passo numa "concessionaria" de motor-home's na Inajar de Souza (ZN-SP) fico pensando como seria pegar um daqueles e fazer uma rota pelo litoral brasileiro…

  6. Dudu Rodriguez disse:

    cara, que história legal usahuhasuhas

    nunca morei num trailer assim, mas morei no meu carro por 3 meses..

    muleque louco de faculdade, morava em uma cidade e fui estudar em outra, as vezes arranjava casa pra dormi, mas fiquei praticamente todo dia por 3 meses dormindo no carro, fiz amizade com os caras de um posto 24h e estacionava o carro lá pra dormir, foi o tempo que eu tive melhores notas na faculdade, pq como não tinha oq fazer no carro, eu ficava estudando, depois quando arranjei casa com outras pessoas, meu deus, que queda…

    isso já faz uns 10 anos quase, era um Clio 2003 zerinho

  7. MPeters disse:

    Deve ser interessante mesmo morar num motor-home, é algo que eu faria por um tempo.

  8. valvalsep disse:

    Meu sonho é ter um motor-home. Mas é inviável aqui no Brasil

  9. Eduardo_CL disse:

    Eu gostaria de morar por um tempo em uma van Dodge dos anos 70, deve ser interessante.

    Coincidentemente, o Lincoln Continental Mark III usa o mesmo motor e a mesma transmissão desse motor-home
    <img src="http://www.imcdb.org/i002340.jpg"width=550&gt;

  10. @Nome_Himats disse:

    Boa idéia, quando estiver sem grana vou comprar um carro grande (uma veraneio, suburban, kombi, ou algum furgão ou algo do tipo ) e passar uma temporada para fazer uma economia, claro depois de achar um lugar onde possa tomar banho e usar o banheiro.

  11. FearWRX disse:

    Só eu lembrei dele?

    [img Responder

  • LEONARDO40 disse:

    Tirando as peripécias, me fez lembrar da minha infância passada em saudosos trailers Turiscar.
    O último foi um desses aqui, o Monterrey SL 1100 (mais conhecido como Quinta Roda):
    https://encrypted-tbn2.google.com/images?q=tbn:AN

  • AF1979 disse:

    Um motorhome extremamente interessante é o da GMC que usava o mesmo conjunto propulsor do Olds Toronado:

    <img width="550" src="http://www.bdub.net/publications/cutaway.JPG"&gt;

    <img width="550" src="http://www.autosavant.com/wp-content/uploads/2009/08/gmc_motorhome_cutaway_view.jpg"&gt;

    <img width="550" src="http://www.gmcclassics.com/vanderhoof/vanderhoof_rtrr-2.jpg"&gt;

  • blackpointer disse:

    Pessoal, imaginem quanto não custaria um trailer igual ao do post. O rapaz pagou US$ 1200,00 por ele, aqui n Brasil não sairia por menos de R$ 35.000,00.

    Não faz parte de nossa cultura ter um veículo assim, por isso os poucos que existem custam os olhos da cara, precisam de um monte de bur(r)oracia pra rodar, lugares difíceis de estacionar e larápios prontos pra depenar.

    Ou seja? Quer curtir a vida e morar em um motor-home? Vá para os EUA, sairá mais barato, a burocracia é com a papelada para mudar para lá, e você ainda vai curtir absurdamente mais.

  • MitsuGyn disse:

    Curti a historia, deu ate vontade de comprar um e ir para um litoral passar um bom tempo.

  • eduams disse:

    Sempre pensei em como seria bacana ser um mochileiro, viajando de cidade em cidade, estado em estado, conhecendo gente nova, vendo pessoas de todos os tipos, comidas de todos os gostos.

    O problema seria a solidão e a grana…

  • jotavio1945 disse:

    a vontade de fazer isso é enorme… á um tempo atrás, tive vontade de comprar um motorhome feito em um onibus e estacionar ele no campus da minha faculdade, e morar lá até me formar… depois, sair por aí, viajando sem rumo… bom se desse pra fazer uma coisa dessas no Brasil, eu pouparia muito com moradia e poderia gastar com diesel!

  • Alfa_Lover disse:

    Adoraria morar num motorhome e também adoraria morar nessa cidade repleta de universitarios… Este sonho tem que se realizar logo, já estou ficando velho demais…

  • @Jonata_jps77 disse:

    Que bela historia.Daria um bom livro sem duvida.

  • danielrds disse:

    Muito bom cara, vou lhes confessar uma coisa, eu tenho um sonho distante de comprar um trailer e sair viajando o Brasil e quem dirás o mundo, deve ser uma sensação incrível e indescritível ….parabens!

  • Pak31181 disse:

    baita história

    é meu sonho pelo menos viajar com um desses qualquer dia…

  • a4155420 disse:

    I’ve said that least 4155420 times. SCK was here

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