21 de Maio de 2013
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Garagem dos sonhos: Mercedes-Benz 450SEL 6.9

Por - Johnny Lieberman - 29 dez, 2010 - 11:01

47 Comentários



O nome completo desse carro é Mercedes-Benz 450SEL 6.9, embora ninguém se importe com a parte que diz ‘450SEL’. Na verdade, poderíamos ignorar até a parte que diz ‘Mercedes-Benz’. Por si só, dois algarismos com um ponto no meio já dizem tudo o que é preciso saber: 6.9.



O 6.9 faz parte daquele distinto grupo de carros reconhecidos simplesmente por seus alfanuméricos (ou, nesse caso, puramente numéricos). F40. M1. 959. ZR-1. Já o M5 não se classifica, pois precisa de outra identificação para saber de que carro estamos falando (E39, por exemplo). Ou o Corvette Z06 (de qual deles estamos falando?). Por outro lado, 6.9 não possui outro significado senão 6.9. Além disso, com exceção dos pneus mais largos, a única coisa que permite distinguir entre o 6.9 e o450SE no qual ele se baseia é um pequeno emblema na tampa do porta-malas. Compare esse nível de camuflagem com os über sedãs e sua profusão de emblemas, vincos e músculos que temos hoje, todos com aquele jeito de lobo em pele de tubarão. Claro que era sempre possível escolher a opção de 261 da fábrica e eliminar o emblema, o que acreditamos ser a maneira correta de rodar com um carro como esse.



E como andava esse carro! Mas antes de falar nas especificações, vamos recapitular o significado do 6.9 para a cultura automotiva. Frank Sinatra, Telly Savalas e o Xá do Irã tiveram um exemplar cada, bem como John F. Kennedy Jr. No filme Ronin, John Frankenheimer (o diretor de Grand Prix) utiliza um BMW M5 e um Audi S8 para filmar sua obra prima. Mas que carro de Stuttgart poderia encarar de frente os melhores de Munique e Ingolstadt de uma só vez em uma das maiores odes ao automóvel já filmadas? Dica: você errou se respondeu ‘Porsche’. Uma pena eles terem adicionado fumaça de pneu falsa.

A primeira perseguição de Ronin



Ainda mais fantástico: após 30 anos, Claude Lelouch finalmente admitiu que o carro que teve uma câmera presa ao para-choque para filmar C’était un rendez-vous era nada menos que um 6.9. Por décadas, as pessoas acreditaram que aquele carro rasgando as entranhas de paris era, de fato, uma Ferrari 275 GTB. Se você for ao Peterson Automotive Museum hoje, verá um vídeo de Rendez-vous rodando ao lado de uma Ferrari 275 GTB/4 e uma placa proclamando seu uso no filme. Claro, Lelouch colocou o som de uma Ferrari, mas um enorme sedã de duas toneladas manter o papel de uma Ferrari por 30 anos? Bem, isso mostra o quão bom um carro com duas portas a mais pode ser.

C’était un rendez-vous



O que torna o 6.9 tão maravilhoso? Como com todos os grandes carros, vamos começar com um pouco de história. Em 1966 um engenheiro chamado Erich Waxemberger decidiu colocar o motor M100 V8 vindo da fabulosa limosine Mercedes-Benz 600 (que já pertencera a John Lennon e ao papa) em um chassi de Classe S W109. Ao fazê-lo, o engenheiro criou o primeiro Q-car — que é como os ingleses chamam os sleepers — da história. Foi um momento iluminado. Enquanto praticamente todo mundo entende o apelo quintessencialmente americano dos muscle cars, é necessária uma percepção muito mais sofisticada para entender o tapa na cara que é um motor superpotente em um sedã com visual original. E tudo começou com o 6.3 do Sr. Waxenberger. O 6.3 foi produzido de 1968 até a crise do petróleo, em 1973, quando a Daimler-Benz o matou. Não me entendam mal, o 6.3 era um p**a carro; a ponto de me deixar na dúvida em sobre qual deles escrever. No entanto, após muito ponderar, decidi que o 6.9 é simplesmente melhor.



Na versão europeia, a gigantesca usina de 6.9L gerava 290 cv e 56 kgf.m de torque (a versão americana teve suas asas cortadas para ‘vergonhosos’ 253 cv e 50 kgf.m de torque). Pode não parecer muito hoje em dia, mas se você for capaz de ajustar sua máquina do tempo mental para 30 anos atrás e reler a frase anterior, fumaça sairá pelas suas orelhas. Para se ter uma ideia, em 1977 um Corvette entregava 222 cv e 35 kgf.m de torque. Uma Ferrari 308 GTS? Você nem vai querer saber (208 cv e 25 kgf.m). Apenas coisas verdadeiramente exóticas (Countach, Aston Martin V8 Vantage, Ferrari 512 BB) tinham mais potência e somente caminhões gigantescos de 18 rodas produziam tanto torque.



E tem mais. Ao contrário dos muscles (e ponies) americanos da época, o motor não era simplesmente grande. Claro, o 6.9 possuía um V8 redimensionado, mas você sabe que não se pode subestimar aqueles alemães. As válvulas de escape eram cheias de sódio – para melhor resfriamento das mesmas, as válvulas de admissão eram nitretadas e todas possuíam hastes cromadas. O sistema de lubrificação escolhido foi o de cárter seco (utilizando mais de 12 litros de óleo!), pois era o único jeito de deixar o carro na altura correta em relação ao solo, já que o grande motor big block chegava até abaixo da linha central do virabrequim. O cabeçote era de alumínio e os tuchos eram hidráulicos.



A suspensão também era hidráulica, em um sistema similar ao do Citroën SM. Um compressor ligado à correia dentada do 6.9 gerava a imensa compressão (2100 a 2900 psi) necessária para fazer com que o carro flutuasse. O 6.9 também contava com o primeiro sistema de freios anti-travamento da história. Isso significava que você poderia pilotar com segurança e relativo conforto o dia todo a pouco menos de 240 km/h se quisesse.

Brock Yates levou o enorme Mercedes para um ‘passeio’ de 100 milhas (160 km) no circuito de Road Atlanta, apenas adicionando 5 psi aos pneus. O 6.9 seguiu, inabalado.


Acredito que não existe nem uma dúzia de sedãs de produção no mundo que poderiam ser levados ao limite por 10 voltas ou 25 milhas (ou 40 km) em Road Atlanta sem sofrer danos severos na parte mecânica.


Sendo assim, criei o que me pareceu ser um legítimo desafio para o 6.9 — 100 milhas em torno de Road Atlanta, 40 voltas em alta velocidade. Se tal distância pudesse ser percorrida sem dificuldades, a capacidade desse automóvel superaria facilmente qualquer coisa, com exceção de uns poucos carros leves, de dois lugares, e estariam muito além dos domínios da compreensão para um pesado sedã de luxo com quatro portas.


…Terminou em uma hora e vinte minutos, com uma velocidade média de pouco mais de 115 km/h. O carro rodou até os boxes e, fora um leve ruído sibilante vindo da suspensão hidropneumática se reajustando, o 6.9 se comportou como se nada tivesse acontecido — como um jovem e forte puro-sangue após uma sessão de exercícios de manhã bem cedo. Esta incrível máquina foi forçada por 100 milhas em um dos mais rigorosos pedaços de asfalto do mundo e ainda esperava pelo próximo desafio! Com exceção de um ligeiro desgaste no lado esquerdo dos pneus, dada a predominância de curvas para a direita em Road Atlanta, e umas poucas manchas pretas em suas rodas de liga leve, por causa do forro dos freios, o 6.9 parecia ter acabado de voltar de um amigável passeio vagaroso no Central Park.





Potência absurda, incrível discrição e a habilidade de transformar 160 km em uma das pistas mais difíceis dos Estados Unidos em um passeio no parque é o tipo de coisa que constrói sonhos. Yates prossegue, dizendo que estava chegando a mais ou menos 200 km/h na reta de volta. Eu me lembro de quase não conseguir fazer um Maserati de mais de 400 cv atingir 200 km/h nesta mesma reta. Hoje em dia, 40 mil dólares é uma boa grana por um carro. Em 1977, isto era alguns dólares a mais do que o preço de um Rolls-Royce, e mais do que o dobro do preço de um Jaguar. Era também o que a Mercedes pedia por um 6.9. Será que valia o quanto custava? Não só responderemos que sim, como daremos a ele um lugar de honra em nossa Garagem dos Sonhos.

Fotos: NetCarShow.com, ClassicMercedes.net, SportsCarAdvisors.com, BenzWorld.org


47 respostas para “Garagem dos sonhos: Mercedes-Benz 450SEL 6.9”

  1. Paulo_Mopar disse:

    Belo carro e belo motor

  2. Thiagones disse:

    Antes de tudo… .O QUE TINHA NAQUELA PO**A DE MALA EM RONIN??!?!?!? (aposto que todo mundo disse isso)

    Eu desconfio que era um pornô da Hebe… kkkkkkkkkk

    Quanto ao mercedes… caramba…. que carro hein… a engenharia a alemã na sua mais fina demonstração.

    .. Quem tem 30 anos, deve ter brincado com uma miniatura desse mercedes.. (dourado)

  3. Geraldão disse:

    Maravilhoso, sempre babei por esse carro e os demais dessa série. Me corrijam se eu estiver errado, mas acho que não rolou uma versão station wagon, o que é triste

  4. Joel_RS disse:

    Mercedes-Benz über alles!

    Uma baita obra de engenharia, um Mercedes puro. SNME tinha preparação AMG pra ele.

    E claro, o desenho já é obra do Bruno Sacco, que já faz falta.

  5. rafthehay disse:

    Realmente, digno de estar na Garagem dos Sonhos como poucos, que sleeper! Cada vez que leio mais sobre esses Mercedes antigos cresce minha paixão pela marca. Ainda virá um 190E pra cá….. (sim, eu gosto dele)

    Agora imagina a velhinha do Golf 3 nesse 6.9!

  6. @Regis_Campos disse:

    Pelo desenho do carro, não, pelo menos para mim não seria um carro os meus sonhos. Mas ao volante seria outros 500.

  7. Alexandre Zamariolli disse:

    Certa vez, topei com um desses em uma calçada da Av. Paulista, em São Paulo, saindo do estacionamento de um banco. Eu estava indo a pé para o trabalho e, quando passei por trás dele e vi o logotipo, apurei o ouvido. A marcha-lenta do bicho parecia uma Scania!

  8. Luan disse:

    Realmente, um senhor carro, ainda mais por ser o protagonista de “Um Certo Encontro”, mas o “S” mais legal pra mim é o W140, muito style aquele carro, com o primeiro V12 da linha (o mesmo do Zonda) o logotipo do V12 na coluna c do carro, e as várias participações no cinema quase sempre no submundo do crime, até falando sobre isso tem um post no Jalopik US sobre o W140 o carro carro dos gangsters europeus, algo assim não me lembro direito, fica aí Jalop pedido de um post sobre o W140 ao estilo Jalop ;)

  9. voaliberdade disse:

    MB é ARTE!!!

    Essa é garagem dos sonhos sem pensar duas vezes!!!!

  10. Fla3D disse:

    Maravilhoso, adoro sleepers!

  11. Adalberto disse:

    Sem mais, sleeper total, pra ver como a Mercedes hoje esta desvirtuada do que ela representava.
    E tem varios W116 no webmotor por menos de 30 mili reais. Depois corre atras do V8.

  12. @Maaanfro disse:

    o elefante da mercedes!

  13. @_Glaukin disse:

    Os Mercedes de hoje são bons, mas eu gosto de lembrar da Evo e da SL. Carrões à frente de seu tempo. Hoje os concorrentes estão muito próximos em níveis de potência, sofisticação, etc.

  14. exchangerates disse:

    While it can be said that the W116 can be called a muscular car, the real German-built muscle car, much more in the spirit of its US brothers, is the earlier W109 300SEL 6.3. I wrote about this years ago — and caught a lot of flack about it — in my Musclecar Culture column in Musclecar Enthusiast.

  15. MrCabDriver_BR disse:

    "Claro que era sempre possível escolher a opção de 261 da fábrica e eliminar o emblema, o que acreditamos ser a maneira correta de rodar com um carro como esse."

    Não entendi.
    Alguém pode me explicar o significado da opcão de 261?

  16. Gustavo disse:

    nunca fui mto fã de mercedes mas esse aí realmente é uma obra-prima do sr. Waxemberger!

  17. Renan Veronezzi disse:

    Bem pessoal, hoje em dia um Passat CC gera 360 Cavalos. Não é tão lindo quanto essa Mercedes, mas deve ser um filé.

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