Para qualquer lugar do mundo ocidental ou ocidentalizado que se olhe, haverá um velho Jeep ainda hoje fazendo serviço sem reclamar. Com o fim da Segunda Guerra, o veículo usado pelas forças militares americanas ganhou a simpatia de diversas nações, que o produziram localmente ou o reinterpretaram a seu modo, em influências que persistiram até depois do fim de linha e geram herdeiros diretos aparentemente improváveis.
1) Mitsubishi Jeep (1953-1998)
Correspondendo à especificação CJ3-B (aqui conhecida por “cara de cavalo”), foi inicialmente feito em CKD e só vinha com volante à esquerda mesmo para o mercado local, situação que perdurou por oito anos. A produção, que interessava ao exército americano por causa da Guerra da Coreia, inicialmente veio com o motor Hurricane de 2,2 l e quatro cilindros, nacionalizado em 1955 sob o nome JH-4 (Japanese Hurricane 4 Cylinder), motor esse que seria substituído com o passar dos anos pela família Astron e unidades a diesel, essas últimas presentes desde 1958.
Entre as carrocerias licenciadas pela Willys, estava a Station Wagon, que inicialmente viria na versão de duas portas (J11) tal qual nossa Rural. Porém, por lá surgiria uma versão de quatro portas (J37) que prevaleceu com o passar dos anos. A especificação CJ3-B também teria suas variações locais.
Coube a ele ser o primeiro modelo conhecido por Pajero, em 1973, em um protótipo com adereços que fariam alguém imaginá-lo guiado por alguma das várias encarnações do Ultraman. O protótipo manteria os conjuntos lanterna/pisca nos para-lamas, em vez de na grade, e ligeiramente elevados em relação aos faróis.
Tal característica estaria no segundo conceito, apresentado em 1978 e já com cara mais de Pajero.
O primeiro Pajero de série, de 1982, traduziria essa particularidade em seus faróis redondos e posicionamento elevado do pisca. As versões de duas e com quatro portas também correspondiam às do Jeep local.
No modelo de quatro portas, o vão entre a porta traseira e a lateral do porta-malas é uma linha reta, como no J37. Essas características vindas do Jeep persistem nos Pajeros atuais. Os faróis redondos sobreviveram na passagem da primeira para a segunda geração e, logo abaixo deles, tinham uma pequena grade, como se fez no “pai” para ocupar os espaços ocos na grade. Só desapareceriam na primeira reestilização da segunda geração, em 1993, com faróis convencionais.
O Mitsubishi Jeep original sairia de linha em 1998, por não atender às exigências de segurança e poluição. Ainda assim geraria um filhote militar, o Type 73, cuja primeira geração era um CJ3 e foi lançada em 1973. A segunda, já sobre o chassi do Pajero, ainda assim assemelhava-se bastante ao velho licenciado da Willys.
2) Índia (1949 até hoje)
Na terra dos gurus, o Jeep fez parte da história antes mesmo de ter sido fabricado, com o Escândalo do Jeep, em 1948, primeiro caso de corrupção pós-independência. No ano seguinte, ele seria fabricado inicialmente em CKD. O volante era do lado esquerdo e só migrou para a direita em 1968.
Tal qual o japonês, saiu originalmente com o Hurricane de 2,2 l, produzido até 1990. Diesel só viria em 1974, com uma unidade de 2,4 l emprestada de tratores International Harvester, que com o tempo ganhariam a companhia de motores de origem Peugeot. Com o advento do diesel, modelos a gasolina ficaram praticamente restritos a compras governamentais.
Além das muitas variedades locais sobre as especificações CJ3-B, em 1965 existiria também uma versão local do Forward Control. A exemplo do Mitsubishi nas versões de teto metálico, o Mahindra também teve versões com portas de metal em vez das miniportas de lona com soleira elevada do Jeep clássico. O mais interessante disso tudo é que o Jeep americano só teria tal solução em 1987, com o lançamento do primeiro Wrangler (YJ).
Assim como Bollywood por vezes faz obras que lembram o cinema americano, 1987 foi o ano em que surgiu o Bahia, versão do CJ340 que lembrava o YJ devido aos faróis quadrados. A grade, por sua vez, aproximava-se do formato que a Mahindra adota hoje em dia.
Modelo realmente novo na Mahindra seria um lançado em 1985 e inspirado no CJ5. O nome, porém, só viria em 1985: MM540. O motor, sempre a diesel, originalmente viria da Peugeot, mas os usos militares pediram a troca por uma unidade de 1,8 l da Isuzu. Com o tempo, surgiriam variações como o MM550, que só sairiam de linha em 2005, devido às novas leis indianas, que também obrigariam à descontinuação dos clássicos. Porém, os mais modernos ressuscitariam em 2010 com o nome Thar.
Após tantos anos, o portfólio da Mahindra exibiria óbvias marcas de sua genealogia remontando à Willys. Sendo quase só de SUVs, a maioria deles tem real capacidade fora de estrada e sua construção é simples. Na frente de todos, grade com barras verticais. Para uso militar, houve a recente apresentação do Axe, modelo em que a genética Jeep é reforçada pelos recentes negócios dos indianos, como veremos adiante.
3) Coreia do Sul (1964-1996)
O cessar-fogo que até hoje vigora na península coreana gerou clima adequado para a fabricação do Jeep abaixo do Paralelo 38. A responsável por isso seria a Hadongwan Motor Company, que fabricaria o modelo a pedido do exército americano a partir de 1964. Tal companhia mudaria o nome para Dong-a-Motor em 1977 e, em 1983, lançaria um modelo muito similar ao CJ7 americano, mas sem estampar o nome Jeep em qualquer lugar: o Korando, nome que é uma corruptela de Korea can do (“a Coreia pode fazer”, em inglês). Seu primeiro motor era a diesel e de origem Isuzu, o mesmo de uma versão local do Trooper.
Em 1986, a marca foi adquirida pelo Ssangyong Business Group e passaria a ser Ssangyong Motor. Nesse mesmo ano, os carros da marca passariam a ser exportado para o Japão e, dois anos depois, para a Europa. Devido ao acordo assinado com a Mercedes-Benz em 1991, o motor passaria a ser o 2,3 l de projeto alemão, que ficaria no cofre do primeiro Korando até seu fim, em 1996, sendo feito em seis versões e dois entre-eixos.
Porém, o segundo Korando refletiria a herança genética com seus faróis redondos, capô de chapa curva e grade com sete barras verticais. No material de divulgação desse modelo, sempre com duas portas, dizia-se claramente que aquele “fora-de-estrada de desenho radical capturava a rude essência do avô dos 4X4 atuais – o Jeep militar americano – e a traz atualizada em uma carroceria com estilo do século XXI”. O modelo, que sairia de linha em 2006, passaria a ter grade com orientação horizontal e hoje em dia é vendido na Rússia pela TagAZ com o nome Tager, desde 2008. Entre 1997 e 2005, foi feito no Vietnã pela Mekong Auto.
Tendo como ponto forte os utilitários esportivos, a Ssangyong teve sua história recente bastante conturbada, desembocando em 2010 com sua venda para a Mahindra. O nome Korando ressuscitou nesse ano, mas em um modelo mais para o asfalto. Já sob administração da Mahindra, o indiano Axe já demonstra sinergias com os coreanos, tendo motor Mercedes-Benz no cofre.
4) Filipinas (1945 até hoje)
Terminada a Segunda Guerra, muitos Jeeps sobraram pelo arquipélago filipino, tendo sua robustez aproveitada para outros usos. Muitos tiveram o chassi alongado e receberam tetos rígidos, tornando-se lotações conhecidas por jeepney (termo que é junção do nome do veículo com o inglês jitney, que significa “lotação”. Do uso militar, vem a maneira como os passageiros sentam nesse veículo, em bancos nas laterais.
Com o suprimento de modelos americanos esgotando, os encarroçadores passaram a usar o Mitsubishi Jeep, mas os donos de veículos, buscando mais capacidade de passageiros, passaram a usar chassis usados de veículos Isuzu ou Mitsubishi Fuso que vinham do Japão. Porém, as linhas das carrocerias majoritariamente lembram as do Jeep, ainda que alguns exemplares lembrem modelos mais modernos de outras marchas, enquanto outros não lembram carros de rua por serem derivados de caminhões cara-chata. A concorrência também fez com que esses veículos altamente coloridos e decorados passassem a ter alguns confortos como ar-condicionado.
Porém, hoje em dia esses veículos estão na mira dos ambientalistas devido a suas emissões poluentes. A maioria deles usa velhos motores a diesel, mas também existem aqueles que rodam com GLP. Também há queixas sobre o ruído e o consumo de combustível para levar um determinado número de passageiros em comparação a ônibus convencionais. Já foram apresentados modelos elétricos.
O futuro desse meio de transporte está em dúvida, pois vários encarroçadores faliram. Ainda assim, o impacto cultural e os hábitos gerados estão enraizados no país, a ponto de ser cantado em versos como os desta baladinha adolescente de Yeng Constantino:
Se você identificou apenas algumas palavras em espanhol e inglês, reflexo das colonizações espanhola e americana, segue a letra para travar a língua, mas com tradução em inglês.

























Um carrinho mundial esse… Sou fã de VWs (Fusca e Kombi) e meu irmão dos 4X4
Costumamos comparar que fuçar num fusca no fim de semana só pra dar uma voltinha, significa a mesma coisa pro jipeiro ter um Willys no fundo da garagem só pra ficar mexendo e de vez em quando por na lama pra ver se a gambiarra deu certo.
Estou pra ver carrinho que aceita mais McGiverzices que estes dois, Fusca e Willys, já vi cada coisa que são inacreditáveis!
E aí, o que vcs já viram? Confiram essa:
<img src="http://2.bp.blogspot.com/-sz91La7MnKc/TXgKpv687QI/AAAAAAAAAyQ/M7y7YKkH7oI/s1600/jeep+willys+rat+rod.jpg">
CARALHO!!!!
Inutilizável, mas LINDO DEMAIS
Bela reportagem… Tudo começou com Mitsubish jeep?
Não. Com o Willys MB.
http://en.wikipedia.org/wiki/Willys_MB
Obrigado pela informaçao
Esse post está show!
Parabéns, Jalopnik!
Apesar de eu não ser fanático por jeep, admiro muito esses veículos.
Existe uma piada no meio 4×4 que diz que caso vc se perca do comboio em uma trilha, é só olhar aonde estão os willys quebrados e saberá o caminho.
Brincadeiras a parte, acho que todo jipeiro, se pudesse, teria um willys. Eles são carismáticos e funcionais.
Só dão uma dor de cabeça….
Em tempo, Hoje no Brasil você consegue comprar a carroceria de um Willys completa em Fibra! É o que muita gente que gosta de willys faz. Alivia-se o peso, e é um problema a menos para ter que cuidar, a tal da ferrugem. Se um dia tiver um willys, com ctz será em fibra.
Já existem pelo menos dois fabricantes fazendo a carroceria completamente nova, de aço! E soube que já fizeram uma de inox. De alumínio seria interessante, acho que nada (além do preço!) impediria esses fabricantes de fazerem uma por encomenda.
Claro, vai pegar um Willys 1948 e ande bem ainda!
isso significa que o jeep é a primeira copia japonesa pós guerra
Gosto demais do Jipe Willys, sabendo cuidar ele não dá problema nenhum e é pau-pra-toda-obra.
Legal saber que até o pajero ainda tem resquícios do velhinho.
Eu tenho um Jeep Willys 1966, com o famoso BF-161, é só cuidar que não quebra , o meu, por exemplo, em 8 anos NUNCA QUEBROU, troco o óleo a cada 5 meses e só coloco gasolina pódium, pois esta não libera o característico cheiro de gasolina do escape do carro.
O Jeep é um mestre em simplicidade. São robustos e duram bastante. E são nada confortáveis. Rodar com um willys 6 cilindros com câmbio de 3 marchas é uma experiência interessante.
Não é a toa que em muitos dos projetos que vejo por aí usam motor + câmbio de opala e (alguns) caixas de direção hidraúlica.
Esqueceram do Kia Rocsta:
<img src=http://www.valuemd.com/attachments/auc-medical-school-classifieds/9086d1236883039-1996-kia-rocsta-sale-p3010004.jpg>
O certo seria Asia Rocsta.
vc está certo, mas segundo o Wikipedia, em alguns países como o Reino Unido, o Rocsta era distribuído pela Kia Motors (dona da Asia Motors) também !!
Esqueceram também o chinês Beijing Jeep, que apesar de bem diferente, tem dna Jeep também!
Ainda bem que essa lista é só dos que tem algum parentesco direto com o original, porque se fosse colocar os que foram inspirados no Jeep faltaria espaço no Jalopnik.
Ter um Jeep é: ter um carro que está sempre vazando óleo, tem um reparo pendente, mas se VC chamar ele para ir à Patagônia, ele te leva!
Das guerras dificilmente saem coisas boas. O Jeep, uma delas.
A tecnologia costuma avançar muitíssimo em guerras. Parte dela é transformada em coisas civis boas. Guerra em si é ruim e esse mesmo salto tecnológico é possível quando duas potências estão se esforçando para não entrar em guerra propriamente dita, como ocorreu na Guerra Fria.
Das guerras sempre saem coisas boas,tirando as mortes e a destruição os avanços tecnológicos que ocorreram nas guerras foi gigante.
Já fui muito fã de Jeeps, hoje não mais.
Um modelo que eu certamente teria na garagem seria o CJ-8 Scrambler… acho interessante o estilo de "pseudo-picape" dele.
Achei muito boa essas historias.Ele também serviu de inspiração para o Toyota Bandeirante e o nosso Troller(que não e derivado dele)!
Essa lista é só do Oriente, porque no Ocidente temos os Jipes GAZ e UAZ da Rússia e o Alfa Romeo Matta da Itália, e o International Harvester Scout nos EUA.
Pq a Mahindra gosta tanto de pontas de eixo mais largas que o carro?!? Kagalho! Será que eles não tem uma solução melhor? Será que eles não enchergam isso?
Até hj sai Scorpio assim. Acho RIDICULO.
Se tivesse a roda livre manual na ponta ainda ia…mas nãããão…tem uma calotinha infame e ridicula
Está para nascer um carro mais versátil,simples,robusto e barato do que o Jeep